VIOLÊNCIA DE GÊNERO: uma resenha sobre o ontem e o agora


Dra Renata Soraia Alves Costa – CRM 19432 Ginecologista e Sexóloga
Dra Renata Soraia Alves Costa – CRM 19432 Ginecologista e Sexóloga
 
O gênero nada mais é que uma construção psicossocial do masculino e do feminino. O conceito de gênero não explicita, necessariamente, desigualdades entre homens e mulheres. Verifica-se que a hierarquia é apenas presumida, e decorre da primazia masculina no passado, transmitida culturalmente com os resquícios de patriarcalismo.
 
Na Roma antiga, o patriarca detinha poder de vida e de morte sobre sua esposa e seus filhos. Não são raros os casos, ainda hoje, em que homens matam suas companheiras, por motivos diversos, dentre os quais predominou, por longo tempo, o da livre defesa da honra masculina.
 
A violência de gênero está centrada na dominação masculina sobre as mulheres, desprezando o fato de as expressões da sexualidade humana não serem sempre singulares, mas diversas e plurais e desconsiderando a diversidade das formas de expressão sexual (gênero e sexualidade) existentes na natureza e nas sociedades. Em nível individual, pensar em relações de gênero implica considerar o corpo (constituições sexuais anatômicas e metabólicas), a cabeça (desejos, auto-representações sexuais, identidades) e as práticas sexuais (escolhas sexuais); e, em nível sociocultural, entender como as sociedades estruturam as relações sexuais e de gênero.
 
Nas sociedades historicamente machistas, homofóbicas e religiosas, como a brasileira, a diversidade de gênero e de orientações sexuais é negada e rejeitada. Nega-se que nasçam, inclusive em número não-desprezível, pessoas que nem sempre o sexo corresponde ao gênero desejado, havendo indivíduos que não sentem e não desejam sua identidade sexual determinada.
 
Fica evidente que as diferentes formas da violência de gênero têm como substrato a sexualidade e o trabalho. A violência surge quando os gêneros não-masculinos saem dos lugares que lhes são determinados e se tornam subversivos – quando o poder patriarcal estruturado é contestado e se acha ameaçado.
 
Segundo Strey (2001), como base de todos os sistemas de estratificação de gênero está à divisão do trabalho baseada no gênero. Ao gênero feminino, cabem as funções ligadas à reprodução da força de trabalho – procriar, alimentar, lavar, socializar, cuidar, proteger. Mesmo no mercado de trabalho, às mulheres são destinados, prioritariamente, os espaços de reprodução e cuidado: domésticas, lavadeiras, faxineiras, crecheiras, professoras, enfermeiras, assistentes sociais. Ao gênero masculino, cabem os lugares de produção, direção e mando: operários, chefes, executivos, planejadores, banqueiros, engenheiros, políticos. Para os transgêneros e os michês, resta o mercado do sexo: prostituição e pornografia. Já os homossexuais costumam exercer profissões ligadas ao estético: cabeleireiros, maquiadores, estilistas de moda, decoradores e artistas.
 
A violência de gênero estrutura-se – social, cultural, econômica e politicamente – a partir da concepção de que os seres humanos estão divididos entre machos e fêmeas, correspondendo a cada sexo lugares, papéis, status e poderes desiguais na vida privada e na pública, na família, no trabalho e na política.
 
A definição de violência contra a mulher no Brasil foi elaborada em meio a uma experiência política inovadora na década de 1980, em que, ao lado de práticas de sensibilização e de conscientização, militantes feministas atendiam mulheres que sofriam violências nos chamados SOS-Mulher.
 
A indignação com o modo pelo qual a violência doméstica era tratada e a visão de que esse crime merecia um tratamento diferenciado induziram os movimentos feministas a reivindicar mudanças que levaram à promulgação da Lei “Maria da Penha”.
 
A biofarmacêutica Maria da Penha Maia Fernandes, em 1983, foi vítima de um tiro nas costas que a deixou paraplégica, aos 38 anos de idade. O autor do disparo, seu marido e professor universitário, Marco Antônio Heredia Viveros, foi condenado e preso em 28 de outubro de 2002, mas apenas cumpriu dois anos de prisão.
 
Surgindo no ordenamento jurídico brasileiro, em 7 de agosto de 2006, a Lei nº 11.340, sancionada pelo atual Presidente da República, que foi, então, batizada de Lei Maria da Penha em homenagem a uma vítima da violência doméstica.
 
Criando assim, mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, conforme prevê art. 226, § 8º, da Constituição Federal, da Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, dispondo inclusive sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; além de estabelecer medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar. As Delegacias de Defesa da Mulher foram criadas para dar maior sustentação às reclamações da população feminina contra as agressões sofridas, na maioria das vezes, no âmbito doméstico.
 
Essas medidas legais e sociais vêm contribuindo pra as mudanças de opinião e comportamento, de uma sociedade que grita pela igualdade.
 
Dra Renata Soraia Alves Costa – CRM 19432 Ginecologista e Sexóloga


Desejo sexual hipoativo na mulher: conhecendo um pouco da resposta sexual feminina


Renatinha

Desejo sexual hipoativo na mulher: conhecendo um pouco da resposta sexual feminina

 

O desejo sexual hipoativo ou simplesmente a ‘perda do libido’ é comumente motivo de consulta ao ginecologista, embora muitas vezes seja uma queixa pouco valorizada, pela paciente e também pelo médico.
De acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde), a sexualidade é considerada como um importante pilar da vida humana que pode ser vivenciada e expressa em pensamentos, fantasias, desejos, crenças, atitudes, valores, comportamentos, práticas, papéis e relações.
A saúde sexual é diretamente afetada pelas relações afetivas e interpessoais, pela qualidade de vida, estrutura social e cultural, aspectos que interferem no comportamento sexual tanto masculino quanto feminino.
O modelo da resposta sexual humana, postulado pelo casal Masters e Johnson e modificado por Kaplan (estudiosos da sexualidade), compõe-se de 4 fases dispostas numa sequência linear: desejo, excitação, orgasmo e resolução. No entanto, as mulheres, em certa fase da vida, iniciariam a relação sexual pelas mais variadas razões, sendo pouco frequente o desejo sexual espontâneo, para desencadear tal resposta.
Ainda que não esteja presente no início do ato sexual, o desejo pode ser desencadeado, à medida que a mulher vai se percebendo sexualmente excitada. Daí desejo e excitação, se confundem e a satisfação sexual (orgasmo) passa a ser desejado.
Para a mulher a excitação também depende de componentes físicos, que modulam o processo cerebral da informação sexual, podendo estar negativamente interferida por cansaço, depressão, efeitos adversos de alguns medicamentos, deficiência de hormônios sexuais, hipotireoidismo, hiperprolactinemia. Falta de segurança, sentimentos negativos pelo parceiro, medo de gravidez ou de doenças sexualmente transmissíveis, experiências sexuais prévias traumáticas, tabus, crenças religiosas, história de abuso na infância, seriam fatores psicossociais e relacionais que também podem interferir.
Portanto se uma mulher inicia o ato sexual sem desejo e este venha surgindo no transcurso da excitação, é absolutamente esperado. Isto seria uma função sexual normal para um modelo circular de resposta sexual, que é diferente do modelo linear masculino, que inicia com o desejo.
A disfunção sexual acontece quando há alterações ou bloqueios em uma ou mais das fases do ciclo da resposta sexual, repercutindo sobre o desejo, prazer ou desempenho esperado. Pode ocorrer isolada ou combinada (atingindo só o desejo e/ou a excitação e/ou o orgasmo); iniciar desde o começo da vida (primária) ou ser adquirida (secundária); ser generalizada (com qualquer parceria) ou situacional (em determinadas circunstâncias).
Em um estudo realizado no Brasil (Estudo da vida sexual do brasileiro, 2004) foi visto que uma em cada 10 brasileiras têm ausência total de desejo, esse número varia com a idade, em jovens de 18 a 25 anos 5,8% e em mulheres com mais de 60 anos 19,9% delas.
Interferem significativamente no desejo sexual: nível cultural e grau de instrução, condição socioeconômica, existência ou não de parceria, nível de satisfação com o relacionamento, qualidade de lubrificação vaginal, saúde física e psíquica, autoestima e percepção de envelhecimento além do tempo de relacionamento sendo comum o desejo feminino mais comprometido em parcerias antigas e maior desejo no início de um relacionamento.
Como a prevalência do Desejo sexual hipoativo é significativa em nosso meio é evidente a necessidade do profissional de saúde valorizar esta queixa, avaliar os parceiros em conjunto e individualmente, identificar possíveis transtornos físicos e/ou psíquicos. Realizar exames complementares necessários. O tratamento é sempre multidisciplinar abordando as possíveis causas, passando pelo tratamento medicamentoso até a terapia sexual.

Dra Renata Soraia Alves Costa – CRM-BA 19432
Ginecologia-Sexologia-Ultrassonografia, Pós Graduada em Ginecologia Ambulatorial, Especializada em Sexualidade Humana.
Consultório: Rua Castro Alves, 923 – 2º andar – Ed. São Felipe- Feira de Santana-BA  Fone: (75) 36260945